Branco

24 março 2014






Começou simples, quase imperceptível. Por pouco tempo, afinal estávamos na era das comunicações, da tecnologia, que avançava a passos largos e se desenvolvia quase magicamente. Informação era simples e em tempo real.

Mensagens de texto que atrasavam em sua entrega, ou sequer eram recebidas por seus destinatários. E-mails que se perdiam na enorme e intrincada teia de aranha online. Três, quatro, cinco, dez tentativas de chamada para um número, todas na caixa postal. De princípio não notamos que estes pequenos fatos aconteciam em escala mundial. Talvez, somente talvez, se houvéssemos percebido...

Naquele milênio nos transformamos em seres dependentes, acomodados. Pessoas que se agarram com apatia a dispositivos e aparatos que supostamente nos aproximavam. Aproximação esta de custo irônico, quase divertido. Víamos rodas de pessoas em mesas de bares, restaurantes e praias, que lado a lado não trocavam entre si uma palavra. A tecnologia estava em nosso poder.

Mas com tantos meios diferentes de “se falar”, estas não se tornavam dispensáveis?
Ao menos era o que a humanidade, tão suprema, imaginava. Que tudo correria bem. Nossos antepassados, estes sim viveram e muito bem, sem possuir nada além de papel e tinta. Mas agora éramos diferentes.
Você consegue imaginar a comoção causada quando um famoso aplicativo de mensagens online parou de funcionar por algumas horas? O estresse, reclamações tomando conta das redes sociais, operadoras que não sabiam dizer o motivo, sequer a própria corporativa que mantinha os direitos sobre o programa conseguia entender.

Eventualmente a situação se normalizava, o erro era consertado. Por alguns meses, ao menos. E voltava a acontecer, mais frequente e com menor espaço de tempo entre os “brancos”. Foi assim que chamamos aqueles momentos em que o contato se perdia, quando ninguém conseguia compreender ou explicar o que acontecia. Quando ficavámos sós no mundo. Cidades inteiras isoladas, governos separados. E duravam cada vez mais e mais. Dependíamos da televisão, quase que abandonada naqueles anos, e da internet para nos falarmos e nos informarmos sobre o que ocorria em nossa sociedade.

Não demorou muito até percebermos que alguns elementos se apagaram definitivamente. SMSs e e-mails se tornaram luxo, raro era um destes alcançar os olhos curiosos de seu dono. Em meses eram carta fora do baralho, impossível confiar nestes canais para informações necessárias, emergenciais. Quantas pessoas não perderam oportunidades por isto? Se houveram mortes? Claro


Houvera aquela vez em que todo um município ficou sem luz e fora saqueado, devastado por moradores furiosos, fúria que vinha do medo, do desconhecido. Ou os suicídios cometidos por pessoas de cabeça fraca, separadas de famílias ou amores. A insanidade humana começava a se propagar, como de comum no começo do caos.

Estes fatos marcaram o ano em que os brancos tomaram a telefonia.
Era comum ver celulares, dos mais simples aos mais modernos, agora usados como pesos de porta ou papel. Ramais fixos eram peças de museus e orelhões obras de arte.  Misteriosamente, qualquer tipo de ligação realizada online também se apagou. Felizmente, a rede ainda funcionava. Ainda.

Não estava tudo bem, porém continuamos vivendo. Usamos de televisão e internet para veiculação de noticiais, criamos sites e blogs para nos comunicarmos com amigos e familiares, compartilharmos nossos momentos e experiências. A carta voltou a ser um meio popular, uma ironia vintage para a situação.

Recordo-me da saudade que sentia em ouvir a voz de minha mãe, que morava tão distante. De ver meu cachorro, já tão velho, latindo e babando para mim através de uma webcam.

Mamãe estava preocupada, meu irmão havia saído com amigos há dois dias e ninguém havia retornado. Podia perceber pela sua letra trêmula e os pingos de lágrima que borravam a tinta do bonito papel amarelado em sua última carta. A mesma datava de uma semana atrás. Nesta época a preocupação começou a tomar conta de mim.

E foi nesta época que os desaparecimentos começaram. Outro fato que tomou algum tempo até sua divulgação, dada ao estado em que mundo se encontrava, parado. Não bastasse a estranheza de tal evento, ocorria com mais que somente pessoas. Animais evanesciam aos olhos de qualquer um. Inicialmente era comum principalmente entre as cidades, nas rodovias e estradas. Algumas estações além, nem metrópoles estavam a salvo.

Paramos de andar, planejar e constuir, sequer avançávamos cientificamente. O medo era presença constante e todos os recursos eram gastos para combater o que estivesse causando o “branco mundial”.

Precisávamos ainda saber o que era a causa. Estreando da estaca zero tão tarde.

Em alguns a esperança restava, contudo meu coração gritava que era em vão. Certo sentimento, desistência misturada com tristeza, me susurrava baixinho que estávamos no caminho para o fim.

Não sabemos o que nos acertou, e foi em cheio. De forma lenta e eficaz.

Apesar de que nada daquilo havia nos preparado para o pior. E sim, ficou pior.

Parecia que viam nossas tentativas falhas e atrapalhadas de escapar.

Naquela manhã de dezembro, o reconhecível aviso sonoro do plantão de notícias soou de minha TV. Aquele barulho somado ao vento frio e ao céu fechado que eu conseguia enxergar pela janela só me faziam confirmar todos os meus medos.

Acordei de meu sono leve, assutado. Abracei com mais força minha namorada, adormecida em meu peito, enquanto ambos descansava no sofá. E do antigo aparelho vi o horror.

Um vídeo enviado por uma pequena emissora mostravam cenas em transmissão mundial quase mundial.

Víamos uma cidade pequena, com seus aproximadamente cinco mil habitantes. Ao menos era o que deveríamos ver. Entretanto o que meus olhos enxergavam eram ruas abandonadas, carros parados, batidos em postes. Vidros quebrados talhavam o chão, eu conseguia ouvir o barulho de seu quebrar enquanto os repórteres andavam.

Não havia ninguém, sequer um cachorro sarnento esquecido, ou um gato fugindo dos estranhos. Ouvir um grilo ou pássaro cantando seria música naquele momento. Todos se foram. Finalmente, uma comunidade evaporara no ar.

Eu estava chocado, lágrimas lavavam meu rosto enquanto lembrava de meu irmão, desaparecido há meses. Aquilo era um aviso do estado em que chegamos, causava o desespero de um mundo cego, perdido.
Quando pensei que o terror havia acabado, as imagens mostravam os repórteres estavam retornando a sua van e finalizando a matéria, a câmera esquecida ligada estava apontada para o chão, deixando os espectadores de cara para o asfalto.

Sem aviso, um som alto. Para mim o mais alto e assustador que já ouvi. A bela em meus braços acordou gritando, trêmula enquanto os altos falantes explodiam e o silêncio voltava a tomar conta. A câmera balançava freneticamente, sendo possível entender os repórteres corriam de algo. E daí o “branco” surgiu para os mortificados espectadores. A forte luz que brilhava clara igual ao sol, curiosamente alva, tomou conta. Se apagou em poucos segundos, nos quais meu coração parou e meu olhar congelou apreensivo.

Esta foi a última vez em que minha televisão transmitiu algo. A minha e a do resto. Naquela manhã perdemos mais um meio de comunicação, dos mais antigos e importantes. O que tentamos dizer ao mundo naquele vídeo nunca seria visto, eu só poderia fantasiar. De tão poderoso sua transmissão de alguma maneira foi impedida. Porém... Não havia sido por nós.

Daquele dia em diante nossas percas ascenderam rapidamente. A carne subia a preços altíssimos, pessoas em campos abertos e ruas paradas desapareciam em questão de segundos. Os correios pararam de funcionar por falta de pessoal, qualquer um que se arriscava a sair da cidade poderia se considerar desaparecido.

Por poucos dias tentamos aguentar, todavia o golpe final estava vindo para nossa cabeça:
A internet morreu.

Qualquer computador agora mostrava uma tela branca ao ser ligado, mesmo nossos arquivos pessoais eram de impossível acesso.

As ruas se tornaram desertos violentos, sair de casa era um risco. Consegui uma arma, não me pergunte como, jamais seria motivo de orgulho. E apenas esperei em casa, com minha namorada.

Restavam poucas semanas para o fim. Há meses eu não recebia notícias de minha mãe. Meses? Não sei...
Perdi a noção do tempo.

Lembro-me de um dia ter saído para invadir algum mercado abandonado, correndo perigo pela busca de qualquer pacote de comida esquecido para preencher meu estômago. 
Ao voltar, machucado e cansado, ela já não estava mais lá. Vou sempre sentir falta do seu cheiro, do seu abraço.

Por um tempo me culpei, me perguntei se eu deveria ter saído, contugo minhas lágrimas secaram. Qual o ponto em chorar? Sempre estivemos todos mortos desde que a primeira ligação caiu no branco.

Aceitei minha própria morte e esperei por ela. Nunca entendi, ninguém entendeu ou descobriu, o que nos dizimou.

Terrorismo, alienígenas, Deus... Não importa mesmo, não mais.

Naquela manhã todos os sons começaram a se esvaindo. Na próxima, o mundo silenciou. Não havia mais vozes, não havia mais barulho. O vento parou de soprar em meus ouvidos, a água não corria. A vida animal se foi. Eu era um dos últimos humanos, acuados como bichos selvagens.

Permaneço aqui e uso meu resto de sanidade para escrever esta carta. Que um dia ela chegue a mãos mais preparadas, que possam se salvar. Durarei pouco agora, não vou conseguir me esconder por muito tempo. Algo está lá fora e vem me buscar também, como todos os outros que eu amava e conhecia.

Pelos bilhões de nós, não ignore este aviso.

Não perca sua essência, não se torne dependente.

Nosso preço foi alto, nossa ignorância foi tremenda.

Autor: Kamal Dehn

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